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2025 ou o Ano que eu voltei a escrever

Poucas pessoas sabem, ou quase ninguém, que um dos meus hobbies favoritos é escrever ficção. De tempos em tempos, faço algum curso que ajude a desenvolver essa habilidade ou que simplesmente alimente esse impulso criativo: pode ser roteiro para cinema, pode ser escrita criativa. Nas gavetas aqui de casa guardo ideias de curtametragens, poesias, histórias em quadrinhos, romances e até universos inteiros de sagas que existem apenas no meu mundinho interior.

A fagulha da criação despertou cedo em mim. Quando pequeno, eu já inventava mundos e histórias. Mesmo antes de saber escrever, pegava meus caderninhos, aqueles retangulares que as crianças usam para rabiscar as primeiras letras, e dividia a página em duas partes com um traço ou fazia uma cruz que criava quadrados desproporcionais para desenhar “a minha nova novela”. Eu chamava de novela porque era o termo mais próximo para explicar o que eu queria contar, mas, na prática, eram histórias que mal dariam dois capítulos, quem dirá cem ou duzentos como uma novela de fato deve ter.

Quando alguma visita chegava em casa, eu já corria para mostrar meus cadernos e apresentar a história para qualquer pessoa disposta a ouvir. Criei muita trama de reis, rainhas e reinos distantes. Mas, dentro de casa, eu não tinha muito apoio para meus dons artísticos. Às vezes, minha mãe ficava feliz em me ver mostrando minhas criações; outras vezes, ela desestimulava, com medo de que o dom artístico fosse visto como uma bandeira vermelha, um sinal de alerta de uma criança veada. Afinal, “menino gosta de futebol e de carrinho.”

Acho que o espanto dela vinha, principalmente, dos inúmeros vestidos que eu desenhava para as personagens femininas. Vestidos de saias avolumadas, formando quase um meio balão, me davam a liberdade de esconder pernas mal feitas. Mas o motivo era simples: roupas de época eram muito mais fáceis de desenhar e ficavam visualmente melhores do que tentar criar corpos retos, longilíneos ou musculosos dos personagens masculinos. E, por causa disso, boa parte desse desejo de me expressar acabou sendo sufocado na infância.

Uma pedra no caminho pode criar dificuldade para a água seguir, mas nunca impede a força do rio. Ele contorna e continuUma pedra no caminho que a água escolheu para percorrer pode criar certa dificuldade para a correnteza seguir, mas jamais irá parar a força de um rio, que contornará a pedra e seguirá o seu fluxo para jorrar sua natureza onde bem entendeu. E, da mesma forma, a arte em mim foi, muitas vezes, uma entidade mágica que precisei transformar em fantasma, escondendo-a para conseguir desempenhar o papel que a sociedade impõe sobre nós.

Na faculdade, reencontrei essa entidade. Entrei no grupo de teatro, escrevi esquetes, participei de peças. Atuar era um dos meus sonhos, mas eu decidi primeiro encontrar uma carreira que me desse estabilidade (e, ironicamente, escolhi logo comunicação social para isso). Queria um trabalho fixo, um salário certo, a segurança de não ser demitido do nada. E o universo me deu exatamente isso: passei em um concurso público, entrei num emprego estável e perpétuo.

O problema é que eu tinha acabado de entrar nos vinte anos. Com salário, sem dívidas gigantescas, eu só queria me divertir. Me mimei. Queria me dar as viagens que nunca tive na infância, os presentes que nunca pude ganhar, e mergulhar numa vida quase boêmia, como dos antigos poetas. Pensava: “Preciso acumular histórias, viver experiências para, quando for escrever minhas ficções, ter conhecimento de causa”. Naveguei por tanto mar turbulento desde então.

E assim deixei aquela entidade mágica ocupando a forma de um fantasma esquecido, adormecido em algum sarcófago interior. Talvez porque o eco do desestímulo da infância ainda reverberasse dentro de mim. Um kriptonita instalada em mim em uma fase tão crucial.

Mesmo assim, vez ou outra esse fantasma via a luz do dia. Na faculdade, além do teatro, participei do Clube do Autor, publiquei dois contos em coletâneas; a última em 2015. Depois disso, vivi quase uma década em hiato. Eu me sabotava, perdia prazos de concursos, me sentia incapaz de publicar qualquer coisa. O perfeccionismo sufocava meu florescimento.

Até que, em 2025, por acaso, recebi o convite de uma colega de trabalho, também escritora, para participar de uma coletânea com um conto de apenas uma folha. Eu tinha vinte e quatro horas para entregar essa página. Na adrenalina, consegui escrever e entregar. Em outubro deste ano, o fantasma voltou à luz depois de tantos anos encarcerado.

E algo em mim mudou desde então. A fase boêmia passou. Hoje navego em águas mais calmas, com a maturidade dos trinta e tantos anos. Parece que aquela entidade mágica está pedindo liberdade definitiva. Chega de esconder um amor tão profundo, uma paixão tão verdadeira. É hora de trazer esse talento à tona.

Por isso, estou empenhado em publicar minha primeira obra solo, sem ser participação em coletânea. Tenho também um livro de poesias enclausuradas e empoeiradas por aqui. E, depois desse retorno à escrita, algo estalou em mim. Talvez o fantasma tenha arrombado a tampa do seu túmulo. Sinto que é, finalmente, a hora de florescer a arte que eu adormeci por tanto tempo.

Jornalista, Produtor de TV, Relações Públicas, Especialista em Produção de Eventos, Escritor

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