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Vale Tudo: O Brasil parou para assistir o Titanic naufragar

Em 1997, o mundo parava para assistir durante 3 horas e 14 minutos de exibição o naufrágio de um dos návios mais conhecidos do mundo… por sua TRAGÉDIA. Assistir ‘Vale Tudo’ (2025) da Rede Globo foi como viver experiência parecida, mas ao contrário do longa-metragem, tivemos que assistir a um návio transatlântico que levava o nome de uma franquia de sucesso, a novela das novelas, naufragar na nossa frente por longos e demasiados seis meses.

Não adianta bater perna, mostrar o mal estar da audiência em ver a história definhar durante a exibição dos seus 173 capítulos, construídos de modo amador, com diversos erros e furos; para a emissora carioca o que vale no frigir dos ovos são os números que a novela conseguiu arrebatar, levando ao pé da letra a máxima “fale bem ou fale mal, mas fale de mim”. O que não significa que quem estava assistindo, estava adorando o que estava vendo, em uma analogia barata, é como assistir um transatlântico que nem “Deus seria capaz de afundar”, rachar ao meio, sucumbir sua equipe, drenar o talento dos seus atores e deixar o telespectador com hipotermia com o frio que dava no estômago a cada nova decisão de roteiro senil.

E se falamos de ovos, esses com certeza não foram frigidos pela protagonista Raquel Accioli, dona do restaurante Paladar. A heroína de 1988, desta vez foi colocada de escanteio, abaixo do posto de coadjuvante. Todos os grandes arcos em que a mocinha era protagonista na original foram detonados e implodidos para não haver chances de Taís Araújo brilhar ou como dizem os futebolistas, dominar o meio de campo. E o drible aqui não foi feito pelas emissoras adversárias do horário nobre ou um time alheio, Taís Araújo foi boicotada pela capitã, a autora Manuela Dias, que jamais será esquecida por esta obra, para uns de mal gosto, para outros pela inovação de abandonar a envergadura crítica e ácida que o texto original tinha.

Desde as primeiras entrevistas, a recepção desta obra foi indigesta, mesmo assim a Globo não recalculou a rota. Manuela Dias adorava falar e até mesmo mandou estampar numa camisa que iria matar Odete Roitman, promessa essa que como um político controverso, não conseguiu cumprir. De forma surreal que até arrepiaria os bigodes de Salvador Dalí, a autora conseguiu forçar um final surpreende (caso você seja uma pessoa que não tenha assistido a novela Belíssima) em que a vilã saiu vivinha da silva de um tiro que perfurou seu corpo e criou um rombo na parede do Copacabana Palace.

Nos últimos dias nos deparamos com a notícia de que em agosto deste ano, a atriz Taís Araújo procurou Dias para conversar sobre os rumos e as insatisfações da personagem Raquel, insatisfações essas que nem partiam 100% da atriz, mas de parcelas da audiência que questionavam a abordagem do protagonismo negro na trama. Todos sabemos que a Globo é uma empresa progressista e numa empresa progressista como bem sabemos o empregado tem total direito de negociar com o seu chefe, não é mesmo? O resultado desse encontro não deu bom.

Vendo em retrocesso, foi neste instante que o fractal de Raquel foi condenado a viver num umbral pior que o de ‘A Viagem’ (1994) na reta final de Vale Tudo. Logo depois, Araújo deu uma entrevista a Quem, entrevista essa em que a atriz foi sincera como ela sempre foi desde quando rejeitou na cara dura a abobora de Ana Maria Braga no Mais Você.

@hugogloss

#TaísAraujo fez uma análise sincerona sobre a derrocada de #Raquel em ValeTudo. Em entrevista à @quem, a atriz afirmou que recebeu com surpresa o retorno da personagem à praia para vender sanduíches, após ter perdido tudo na trama. A atriz lamentou que o enredo não tenha seguido a trajetória de ascensão social que imaginava para a protagonista, especialmente por considerar a história uma oportunidade de reescrever narrativas sobre mulheres negras na teledramaturgia. Mesmo sem concordar com os rumos escolhidos para a personagem, Taís reforçou seu compromisso em representar Raquel com dignidade até o fim da novela. Ela também destacou o impacto da ficção na construção de novos imaginários sociais e disse torcer por uma reviravolta. (📹: @quem)

♬ som original – Hugo Gloss

E se a gente quiser retomar a analogia com Titanic, foi nesse momento que Odete Roitman assumiu a sua posição na porta flutuante na água para sobreviver e Raquel Accioli petrificou no mar de ego da autora que ela ousou enfrentar. Bom, eu e você sabemos bem tinha espaço naquele pedaço de porta de madeira para dois sobreviverem. Agora que a gente retomou a esse paralelo para finalizar, fico me perguntando se Manu não seria a velha senhora que decidiu jogar a joia que tinha em mãos no fundo do mar.

Bom, eu sei que da minha parte, este návio encostou no iceberg em meados de junho, quando eu deixei de ver a novela com frequência assídua. Foi na semana do casamento de Maria de Fátima com Afonso Roitman que eu abandonei o barco. Para mim, aquele final teria sido excelente, aquela semana terminou com todo mundo tomando seu caminho: Raquel abrindo os olhos para a filha que tinha; Maria de Fátima alcançando seu objetivo; Solange dando um tapa de lição para Fatynha; e Odete Roitman tinha voltado com o seu amante rumo à Europa que ela tanto admirava. Que bom seria se tivesse terminado ali!

Jornalista, Produtor de TV, Relações Públicas, Especialista em Produção de Eventos, Escritor

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