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‘Manas’ retrata a monstruosidade do homem nas vargens da Amazônia

Vargem é o nome que se dá a uma área de terra fértil próxima aos rios na Amazônia brasileira. Essas extensões de solo úmido e abundante fazem parte do cotidiano de quem vive longe dos grandes centros urbanos, especialmente em regiões como a Ilha do Marajó, no Pará. Ali, comunidades ribeirinhas sobrevivem do que a floresta oferece, do que se pode coletar, pescar ou produzir. Entre esses frutos está o açaí, base econômica e cultural daquele território.

É nesse cenário que descobrimos Marcílio, interpretado por Rômulo Braga, conhecido por trabalhos intensos como Carvão e O Rio do Desejo. Ele sustenta a esposa Danielle, vivida com sensibilidade por Fátima Macedo, e os filhos, entre eles a jovem Marcielle, interpretada por Jamilli Correa. Aos 13 anos, Marcielle carrega a inocência e o peso de uma infância que já ameaça ruir. Uma das irmãs mais velhas fugiu daquele ambiente, e bastam algumas idas com o pai às vargens para que o horror escondido na rotina familiar se revele. Essa é a primeira camada de Manas (2024), filme dirigido por Marianna Brennand, que estreia na ficção após assinar documentários como Francisco Brennand e Danado de Bom.

A exploração sexual infantil na Ilha do Marajó permanece como uma das páginas mais sombrias da história recente do Brasil. No entanto, Brennand recusa qualquer abordagem sensacionalista. A diretora entrega ao espectador um retrato preciso e doloroso, mas jamais gráfico. Seu olhar vem do documentário e carrega a responsabilidade de quem sabe que a realidade já é dura o bastante. A violência está ali, mas sempre apresentada em um limite ético e suportável, o que torna o impacto ainda mais profundo.

O elenco acompanha essa sobriedade com interpretações cheias de verdade. As cenas de Marcielle no mercadinho e entre os colegas da escola fluem com naturalidade, como se fossem registros de vida real. Jamilli Correa entrega uma atuação surpreendente para alguém que nunca havia atuado. Ela dá corpo a uma menina que alterna entre a inocência e a aventura, entre o impulso de proteger os irmãos e a necessidade de silenciar, tentando evitar que uma família já esgarçada desmorone de vez. É um desempenho construído em nuances, em pequenos gestos, em olhares que dizem mais que palavras.

Dira Paes surge como a policial Aretha, personagem inspirada em duas mulheres que combatem a exploração sexual infantil no Marajó. Aos poucos, Aretha descobre os segredos que Marcielle tenta esconder e faz da sua função um ato de resistência. A presença de Dira acrescenta força, urgência e humanidade à narrativa.

O pai interpretado por Rômulo Braga e a filha interpretada pela estreante Jamilli Correa

Minha experiência assistindo

No início de novembro, com o sinal aberto do Telecine, decidi assistir ao filme disponível no catálogo. A primeira tentativa aconteceu após uma noite de insônia e, inevitavelmente, adormeci. A segunda foi acompanhada por aqueles cochilos fragmentados que embaralham a percepção. Concluí o filme, mas sem compreendê-lo por inteiro.

Somente na terceira vez, totalmente desperto, percebi a força real da obra. Manas retrata um Brasil brutal que precisa aparecer na nossa dramaturgia e no nosso audiovisual. Brennand demonstra domínio absoluto sobre o que mostrar e o que sugerir, sempre evitando o exagero que poderia distorcer a mensagem.

O desfecho confirma essa precisão. Finais de filmes costumam elevar ou arruinar uma história, mas em Manas os minutos finais são de grande impacto e proporcionam um sentimento de busca por justiça. Marcielle, em sua coragem, honra o título do longa e se torna símbolo de resistência.

Minha nota para Manas é 9 de 10. Não é uma obra grandiosa em escala, porém é essencial. É necessária para o Brasil e ainda mais para nós, nortistas, que reconhecemos na tela feridas que insistem em ser abertas. O filme chegou a ser considerado para representar o país no Oscar, mas a vaga acabou ficando com o admirável O Agente Secreto. Mesmo assim, Manas permanece como uma obra urgente e indispensável.

Jornalista, Produtor de TV, Relações Públicas, Especialista em Produção de Eventos, Escritor

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