Três Graças: as coincidências com a trama de ‘Bom Sucesso’, novela das 7 da Rede Globo
Para quem vê Grazi Massafera no papel da vilã Arminda, na nova novela das nove da Rede Globo, Três Graças (2025), pode não se lembrar de que ela já esteve em posição semelhante à de Gerluce (Sophie Charlotte). Grazi já interpretou uma mocinha que trabalhava como acompanhante de leitura e convivência de um ricaço idoso em Bom Sucesso (2019), novela das sete da mesma emissora. E as coincidências não param por aí.
Bom Sucesso, escrita por Rosane Svartman e Paulo Halm, foi exibida de julho de 2019 a janeiro de 2020. Na trama, Grazi interpreta Paloma, uma costureira humilde do bairro de Bonsucesso, no Rio de Janeiro, que cria sozinha seus três filhos. A filha mais velha, Alice (Bruna Inocêncio), nasceu quando Paloma tinha apenas 15 anos, uma nova coincidência direta com o dilema apresentado em Três Graças. O pai da criança, Ramon (David Júnior), abandona a família logo após o nascimento do bebê para tentar a sorte como jogador de basquete nos Estados Unidos.

Outra coincidência interessante é que, novamente, o mocinho é vivido por Rômulo Estrela. Em Três Graças, ele interpreta o policial Paulinho; em Bom Sucesso, foi o bon vivant Marcos, um típico “nepobaby”. Paloma e Marcos se conhecem depois que ela recebe um diagnóstico equivocado de que teria apenas seis meses de vida. Decidida a viver intensamente, ela realiza uma lista de desejos e um deles é se envolver com um desconhecido, que acaba sendo justamente Marcos.
Marcos é filho de Alberto (Antônio Fagundes), dono da editora Prado Monteiro, um homem idoso e rabugento, insatisfeito com os rumos tomados pelos filhos. Na verdade, é Alberto quem está com o diagnóstico de apenas seis meses de vida — os exames dele e de Paloma haviam sido trocados. Depois da descoberta, Paloma passa a fazer companhia a Alberto, lendo para ele e compartilhando o amor pelos livros.

A novela foi um sucesso estrondoso de audiência, marcando índices que a faixa não via desde Cheias de Charme (2012). O desempenho elevou o Ibope do horário, beneficiando o Jornal Nacional e Amor de Mãe, que recebiam a faixa em alta.
Outro ponto curioso é a semelhança nas aberturas. Bom Sucesso trazia um samba leve e otimista, “O Sol Nascerá”, na voz de Zeca Pagodinho e Teresa Cristina. Já Três Graças apresenta uma nova roupagem para o samba “Clareou”, interpretado por Thiaguinho e Negra Li, um sucesso de Diogo Nogueira e Xande de Pilares. Nos últimos dias, parte do público percebeu inclusive uma sutil alteração na sequência de abertura da atual novela das nove.
Três Graças: a volta do “novelão absoluto”
Após o desempenho irregular de Vale Tudo (2025), a faixa das nove recebe um novo respiro com Três Graças, criação de Aguinaldo Silva, que retorna à Globo com o propósito declarado de devolver à teledramaturgia o sabor do novelão clássico ou do que ele chama de “Absolute Novela”. O autor, conhecido por unir melodrama e crítica social, retoma aqui sua assinatura: personagens de forte apelo popular, vilãs magnéticas e tramas familiares explosivas.

Originalmente ambientada no Rio de Janeiro, a trama foi transportada para São Paulo. Grazi Massafera vive Arminda, uma patroa arrogante que mora em um casarão no bairro da Aclimação com a mãe idosa, Josefa (Arlete Salles), e o filho problemático, Raul (Paulo Mendes).
Gerluce (Sophie Charlotte) é uma cuidadora que vem da favela fictícia da Chacrinha, na Brasilândia (bairro real), para cuidar de dona Josefa. Herdeira do ofício da mãe, Lígia (Dira Paes), antiga funcionária da casa, Gerluce se envolve com Paulinho (Rômulo Estrela), um policial que transita entre o dever e o afeto. Assim como em Bom Sucesso, Sophie interpreta uma mulher batalhadora que carrega dilemas familiares: Gerluce foi mãe solo ainda na adolescência, situação semelhante à de sua própria filha, Joélly (Alana Cabral).

Entre coincidências e paralelos, Três Graças mantém sua originalidade. A novela se sustenta em um equilíbrio raro entre roteiro, direção e elenco; um casamento de talentos que entrega uma trama envolvente e autenticamente brasileira.
Confesso que hesitei em me posicionar sobre essa nova produção. Antes, apostei minhas fichas em Mania de Você, mas abandonei a trama após a primeira virada de fase: não consegui digerir a ideia de Luma (Agatha Moreira) perder tudo para Mavi (Chay Suede) sem sequer recorrer à polícia.
Com Vale Tudo, a expectativa era enorme, já que o texto original é irretocável. No entanto, o remake se distanciou tanto da essência da obra que, mesmo com a chegada de Odete Roitman — e uma trilha sonora memorável —, não resisti. Desisti na semana do casamento de Maria de Fátima e Afonso Roitman, considerando aquele o verdadeiro encerramento da história. O que veio depois foi apenas ladeira abaixo.
Por isso, torço para que Três Graças se firme como um grande sucesso e ajude a reconsolidar a faixa das nove como sinônimo de qualidade e relevância na teledramaturgia brasileira. Sigo acompanhando e com esperança.




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